terça-feira, março 07, 2006

I - A Casa Grande

Ficava no alto de um monte, a Casa Grande. Hoje em dia ninguém acredita, mas a verdade é essa. A vila marinha que outrora se lhe debruçava aos pés, cresceu, tomou freio nos dentes e acabou por engolir aquela que, um dia, a olhara de cima. Não com o olhar altivo daqueles que muito se julgam, mas de maneira terna, como uma mãe que simultaneamente protege e se revê nos filhos.
Era assim a Casa Grande. Por fora, a estrutura de pedra indicava que fora feita para durar pelos séculos dos séculos. Uma meia verdade, destinada a tropeçar no primeiro impasse burocrático surgido, a par com o inexorável crescimento daquela que fora a vila dos seus olhos.
Por dentro, a família. Lado a lado com a estrutura de pedra, uma hierarquia militarmente organizada, com bisavós, avós, filhos e netos – para aí uns vinte – e o cão, como não podia deixar de ser. Nunca o mesmo, mas sempre o cão... quer fosse a Rebolita, quer fosse o Boife.
Feita como fora, para durar, a Casa Grande contaria, se lhe fosse dado o benefício da fala, as histórias quase incríveis de todos os meninos que ali nasceram. Tios, pais, amigos da família e até a filha de uma criada – que dizia, a quem a queria ouvir, que sofria de «barriga de água», doença que teve uma inexplicável (e chorona) cura nove meses depois – viram pela primeira vez a luz do dia coada por aquelas janelas de grandes tábuas de madeira e pesados puxadores de ferro que já não se fabricam em lado nenhum.
As grandes salas do primeiro andar, dariam testemunho dos bailes de máscaras de que, hoje em dia, já pouca gente tem memória naquela vila tornada cidade, mas que, na altura, tinham o sabor dos grandes acontecimentos mundanos em que era indispensável estar presente.
Infelizmente, a minha memória não vai além do avô, a alma da Casa Grande por direito dinástico. Já então mirrado pelos anos e pelo catarro, o avô herdara o carácter de instituição que, na família, sempre se atribuiu ao patriarca, fosse ele quem fosse. Já tinha sido assim com o bisavô, se bem que naquela altura, o seu poder não fosse além das duas dimensões do retrato A1 da sala do meio, que já só servia para aterrorizar os meninos mais rebeldes.
O avô, esse, nada tinha de instituição, esmagado que fora toda a vida por um sogro de patente superior, o Senhor General, e uma mulher com uma personalidade imensa, de cuja viuvez precoce o deixou ainda mais orfão do que os próprios filhos. Apesar de tudo, o avô conseguia dividir-se entre uma paciência infinda para todos os netos e uma falta de jeito crassa para as pequenas idiossincrasias de cada um.
Assombrado pela estranha presença de uma sogra, meio louca, que por um triz não lhe sobreviveu, e da Isabel, a criada cabo-verdiana de enormes seios maternais e feitio levado dos diabos, o avô ficou na Casa Grande muito depois de todos terem partido, atraídos pelas urgências da capital, ali tão perto, e das politiquices que, na altura, assumiam todos os contornos do fruto proibido.
Institucionalizados os nascimentos nas grandes maternidades e votados ao esquecimento os bailes de máscaras do tempo da avó, a Casa Grande tornou-se então, e apenas, a sede dos Verões inesquecíveis e dos almoços de domingo. Mas mesmo assim, ninguém lhe negava o porte, a alma e a condição de quem já por muito passara, irmã espiritual que era de tantos velhinhos que ali viram chegar o fim dos seus dias – como o avô mirrado e a bisavó meio louca –, guardiã de tesouros e segredos de um passado ainda mais remoto, que ali chegaram (e ficaram) com os seus primeiros habitantes.
O facto de ter nascido num monte que virou vale ainda antes do final dos seus dias, mais não é do que a prova cabal de uma decadência cujas raízes se estendiam muito para além do desígnio dos tempos; nas mãos da insaciável vontade dos homens.