sexta-feira, janeiro 04, 2008

V - A sala do meio

Lembro-me dela como se fosse ontem. Dizem, todos aqueles a quem a memória permite ir mais longe, que era o diabo. O mínimo contratempo era passível de provocar a mais violenta tempestade naquela senhora de nervos de papel. Mas, para mim, a recordação devolve-ma sempre mansa como um cordeiro. Para mim, era uma espécie de boneca a quem a Silvéria, encarregada de tomar conta dela, às vezes me deixava dar de comer. E ela obedecia, tão doce e bem comportada como a boneca dos sonhos de qualquer menina. Eu, pelo meu lado, não via o brilho divertido no olhar daquela velhinha mirrada, deliciada com a novidade de ter uma criança tão pequena a dar-lhe de comer e, ainda para mais, com um ar tão compenetrado.
Hoje pesa-me a curta memória, porque esse brilho no olhar era mesmo a última coisa que lhe restava dos tempos de antigamente: quando os seus nervos de papel a faziam virar o diabo; quando o seu insólito sentido de humor, que a todos surpreendia, a levava a pintar a manta. Destravada, como poucos, pouco sensata, talvez, mas com certeza divertida... hilariante, mesmo.
Tempos houve em que, conta quem se lembra, não havia quem nela tivesse mão. Depois de a morte lhe ter levado o marido e a filha, quase no mesmo sopro, nem mesmo ela tinha mão sobre si. A única bisavó que conheci viva transformou-se num fantasma do que era. Uma alma penada que percorria a casa, a altas horas, em camisa de noite de folhos, como as que já só se vêem em filmes de época e touca de dormir a segurar o cabelo desgrenhado. Na mão, uma vela acesa abria-lhe caminho pelos corredores da casa enquanto projectava sombras aterradoras ao longo das paredes. Um verdadeiro susto para as criadas da casa, o pânico total para os bisnetos que a encaravam como uma verdadeira assombração. Por vezes, uma consciência irónica permitia-lhe ter algum vislumbre do pavor que causava aos habitantes mais sensíveis daquela casa. Nessas alturas, voltava-lhe intacto o sentido de humor do passado e a Bisa divertia-se como uma menina pequena a tirar partido das fraquezas alheias. Então, soltava ladainhas, fazia caretas medonhas e momices assustadoras que só não enganavam aqueles que já conheciam de sobra o brilho risonho que, nessas ocasiões, lhe acendia o olhar. Entre os bisnetos, só mesmo o Gito resistia a estas investidas assustadoras. Uma coragem que, segundo conta o próprio, lhe valeu, vezes sem conta, um quadrado de açúcar, a única guloseima a que a Bisa tinha acesso na altura.
Eu devia ter para aí uns cinco anos quando a Bisa morreu. Quando a conheci, já não pregava partidas, já não tinha ataques de nervos e já não assustava os meninos da casa com os seus olhares de louca, os seus cabelos desgrenhados e os seus hábitos pouco ortodoxos. A já longa velhice tinha-a confinado à sala do meio, de onde nunca saía sob pretexto algum, resignada à única janela que, rasgada para o jardim, lhe trazia alguma luz, por entre os gritos e as gargalhadas de uma mão cheia de bisnetos indiferentes que aí brincavam.
Quando descobriram que a Bisa já não estava capaz de tomar conta de si mesma a família viu-se forçada a fazer uma reunião de emergência. Como convencer aquela senhora, de teimosia inabalável e feitio levado da breca a deixar que tratassem dela? Foi difícil, contou-me a minha mãe. Quando finalmente conseguiram convencê-la a descer um lanço de escadas e trocar o quarto que partilhara durante tantos anos com o Senhor General pela sala do meio, o cabelo platinado, que outrora fora o seu orgulho, já não sabia o que era pente há um bom par de meses. Foi necessário levá-la ao cabeleireiro e distrair a sua atenção enquanto lhe davam umas discretas tesouradas aqui, ali e onde já não havia outro remédio. Depois, a Silvéria entrou em campo e a Bisa abandonou definitivamente os comportamentos sui generis que, noutros tempos, a tinham caracterizado.
A passagem para a sala do meio veio pôr fim a uma era. Com ela, acabaram-se os ataques de nervos intempestivos, as deambulações nocturnas que tanto aterrorizavam os meninos e as criadas da casa, mas também os provérbios oportunos, as piadas imprevistas e imprevisíveis, as lenga-lengas que eram o seu ex-libris: «Arre burrinho para Azeitão carregadinho de feijão para mim e para o meu cão. O meu cão não mora aqui, mora às portas do Rossio. Venha chuva, venha vento, corre que nem um corrupio!».
Com a passagem para a sala do meio, a Bisa começou a morrer lentamente, primeiro para si mesma, depois para o mundo e finalmente para a vida. Nos últimos tempos, eram poucos aqueles que a visitavam. O genro, que com ela partilhava memórias dolorosas, os netos, que dela muito recordavam e aquela bisneta minúscula, que insistia em confundi-la com as suas bonecas e desafiava a Silvéria para que a deixasse dar-lhe de comer.
Quando a Bisa morreu, não me quiseram contar. Soube passada uma semana, de chofre, quando ao anunciar a minha intenção de interromper uma brincadeira qualquer para lhe fazer uma visita, o Manel Grande me comunicou que ela morrera. Na altura, não me lembro de ter sentido uma grande dor. A morte é uma coisa estranha para as crianças pequenas. A consciência da perda é algo que vem mais tarde.
Depois da morte da Bisa, a sala do meio foi transformada em escritório-biblioteca. Qualquer coisa que servia os interesses de quem ali quisesse encontrar algum sossego, quer gostasse de ler muito, pouco ou nada. Aliás, a forma como aquela biblioteca estava organizada era por si só curiosa, já que permitia às “Memórias de um Burro”, da Condessa de Ségur, partilhar o escaparate de “Os Possessos” de Dostoievski, um livro que, na opinião do meu pai, era um retrato fidedigno da génese da Casa Grande. Ainda assim, não foram poucos aqueles que ali descobriram boa companhia para as tardes eternas das férias grandes. Quanto a mim, uma das grandes vantagens daquela mini-biblioteca era precisamente o facto de lhe faltar um censor. Se não fosse assim, nunca me teriam deixado ler, aos 14 anos, “O Pássaro Pintado” de Jerzy Kosinski, um dos livros que mais me marcou até hoje não tanto pela qualidade da escrita, algo que me era perfeitamente indiferente na época, mas sobretudo pela crueza de uma narrativa desaforadamente realista que ficou, para sempre, única na minha memória. Lado a lado com a Bisa, Kosinski é uma das boas recordações que me ficaram da sala do meio.

quinta-feira, março 09, 2006

IV - A sala do homem da Lua

Apesar do mau feitio, que a todos exasperava, a Isabel podia ser absolutamente divertida, quando estava bem disposta. Profundamente maliciosa, conseguia, em três tempos, transformar a conversa mais inocente no diálogo mais picante sem que o seu interlocutor se apercebesse do caminho por que estava a ser conduzido.
As poucas palavras em crioulo que com ela aprendemos eram invariavelmente os mais cabeludos palavrões, que os mais pequenos repetiam à mesa para pasmo dos «grandes» e gáudio da autora da proeza.
Guardo na memória um episódio que, apesar de longínquo, continua a ser mencionado aqui e ali, nas vagas reuniões familiares que pontuam o pós-queda da Casa Velha e que me parece ser bem revelador do feitio da rainha do paraíso de todos os esconderijos.
Passou-se na sala do homem da lua onde, todas as noites depois do jantar, a família se reunia em frente da televisão. A Isabel nem sempre aparecia. Não propriamente por falta de convite mas por motivos fisico-sociais. É que aquela mulher, que conseguia mandar em todos lá em casa, tinha uma noção muito sui-generis daquilo a que chamava “o seu lugar”. Da cozinha, podia bem reinar sobre toda a casa, mas isso não implicava forçosamente a sua presença física nos restantes compartimentos da mesma e muito menos na sala de estar onde a família se reunia. Fosse como fosse, parecia saber sempre, sem que lhe dissessem, aquilo que se passava em cada metro quadrado da Casa Grande, desde os cobertores que, por obra e graça do Espírito Santo, mudavam de cama, aos pratos partidos que subrepticiamente iam parar ao caixote do lixo dos vizinhos do lado.
Naquele dia, no entanto, as coisas eram diferentes. Naquele dia, o Homem (ou um homem, pelo menos) iria pôr os pés na Lua pela primeira vez, uma proeza sobre a qual a Isabel fazia questão de manifestar a sua incredulidade.
O senhor que, reza a História, se chamava Neil Armstrong – ainda que o nome da criatura nunca tivesse interessado à Isabel – ia, à semelhança dos marujos de outrora que ainda hoje nos enchem de orgulho, trilhar rumos nunca antes trilhados e pisar chãos nunca antes pisados. E, pasme-se, a grande caixa rectangular de fundo preto e branco da sala prometia transmitir a proeza e em tempo real.
«Isabel! Oh Isabel venha ver!». Foram várias as vozes que, àquela hora se ergueram para chamar a única que não respondera à chamada. O Bugas, que na condição de primogénito se arrogava a missão de educador das hostes, andava há já uns dias a preparar aquela mulher de indomáveis convicções para a realidade inevitável de que o homem (o tal) iria pisar a Lua pela primeira vez. Tudo em vão. Acreditasse quem quisesse, porque ela tinha mais que fazer.
Finalmente, ao fim de várias instâncias, a dona do nome, já gasto por tanto grito e apelo, lá acedeu em responder ao chamado. A porta abriu-se silenciosamente, como sempre sob a sua mão vigilante e a enorme mulher de seios generosos e traseiro polpudo entrou na sala. «Oh Isabel, finalmente! Sente-se aqui». Mais ao fundo, outra voz se elevava, «não, não... aqui, aqui!» Ela, qual rainha da noite, deu-se ao luxo de escolher poiso. «Não. Sento-me antes aqui», disse optando por uma velha cadeira torta, de costas partidas que, na sua opinião, melhor assentava à sua condição de serviçal. Nos olhos azuis mar de crioula genuína, um brilho malicioso denunciava a intenção que a trouxera da cozinha. A nós, ninguém nos engana, pareciam querer dizer.
Na caixa rectangular de fundo preto e branco, as imagens falavam por si. À volta, o silêncio impunha-se, temeroso, respeitoso. Ninguém se atrevia a respirar. Nem a Isabel, atrevo-me a dizer. Sobre estas imagens guardo poucas recordações. Teria para aí uns quatro anos, na altura. Mas lembro-me bem que, durante semanas, não se falava noutra coisa lá em casa. Todos tinham uma opinião ou um comentário a fazer. Todos, menos a Isabel. Depois da sessão, saiu da sala muda e calada e foi necessária uma semana inteirinha de apelos e súplicas para que ela lá dissesse o que achara da proeza dos americanos. “Mas vocês acham que eu acredito que a lua, que é pouco maior que um copo de grogue, tem aquele chão todo para um homem pisar!”, exclamou a mulher, em tom que não admitia réplicas. O ar divertido com que o disse era passível de suscitar dúvidas, mas o assunto estava definitivamente encerrado. A Isabel não era daquelas que dá o braço a torcer facilmente. E contra factos não há argumentos.

terça-feira, março 07, 2006

III - O paraíso de todos os esconderijos

Bastava entrar na cozinha para ter a certeza desta máxima. Aliás, os próprios ratos tinham medo de se aventurar naquele paraíso de todos os esconderijos, onde era possível encontrar de tudo, desde bolas de cera para fazer velas a sapatos velhos, sem par, que, quem sabe, talvez pudessem um dia voltar a servir a alguém.
A podridão de muitos dos alimentos que connosco passaram intermináveis férias atestava uma verdade única: a Isabel confiava plena e cegamente no instinto de conservação das vitualhas. Mesmo quando o aspecto – e muitas vezes o cheiro – nos dava a prova cabal de que essa confiança era imerecida. Recordo ainda uma cenoura, vagamente aparentada com os vegetais típicos do Entroncamento, que passou um Verão inteiro em exposição em cima do frigorífico... E ai de quem lhe tocasse.
Às vezes, até mesmo nós tínhamos medo de ir à cozinha, não tanto pela incrível panóplia de objectos e potenciais alimentos – alguns deles inidentificáveis – que aí moravam mas, mais ainda talvez, pelo terrível feitio da soberana que sobre estes reinava.
A Isabel era assim mesmo. Ninguém passava impunemente pelo paraíso de todos os esconderijos. Mais. Estávamos todos dependentes das suas imprevisíveis mudanças de humor. Quando descíamos, de manhã, para tomar o pequeno-almoço, nunca sabíamos se esse dia ia ser «da caça ou do caçador» ou, caso pertencesse a qualquer um dos dois, se as coisas permaneceriam assim até ao cair da noite.
Nos dias em que eramos o caçador – nunca todos ao mesmo tempo, evidentemente – podíamos fazer dela o que quiséssemos. Uma vantagem que usávamos com alguma parcimónia, salvaguardando sempre a hipótese de, no dia seguinte, virmos a ser a caça.
Nem mesmo nos dias de folga da Isabel nos aventurávamos muito por aquelas bandas. Qualquer molécula, fosse do que fosse, que ficasse fora do lugar era passível de acarretar todo o género de retaliações no dia seguinte... E a Isabel nunca vinha de bom humor das suas folgas.
Aparte esses pequenos detalhes, era um verdadeiro anjo. Cúmplice dos muitos amores e desamores que pela Casa Grande passaram; fiel depositária dos pequenos segredos de cada um – que nem às paredes confessava – a Isabel foi uma segunda mãe para todos nós. Uma mãe muito sui-generis, diga-se em abono da verdade, mas uma mãe sem sombra de dúvidas.
Com ela bebemos todos a «água do madeiral», o que equivale a dizer que herdámos o fascínio por Cabo Verde, uma terra que, apesar de tudo, muitos de nós nunca chegaram a visitar. Se foi a insubstituível cachupa dos almoços de domingo, ou o raríssimo caldo de peixe que pontuava os «dias do caçador» e nos deliciava até às lágrimas... Ou, melhor ainda, se foi o saboroso ponche acompanhado por fatias de cuscus ou pelas incríveis bolachas de araruta dos marinheiros que, feitas para muito durar, chegavam a partir dentes – mas que todos aprendemos a apreciar, apesar de muitas vezes saberem a mofo –, não tenho bem a certeza... Cada um de nós terá certamente a sua resposta. Para mim, talvez tenham sido as infindáveis mornas que, de encontro aos seus seios de mãe eterna, nos acalentaram as noites de pesadelo e as tardes de pequenas tristezas.

II - Mosaicos azuis, vermelhos e brancos

Nos tempos do avô, no entanto, o vale ainda era pouco profundo; ainda não adquirira aquele aspecto de vala comum onde, juntamente com os sonhos, ficaram enterradas as memórias da família... e o Boife.
Nos tempos do avô ainda se podiam apanhar ginjas no jardim e as ameixas ainda não sabiam a fénico. Depois, ficou apenas a figueira, testemunho de muitos assaltos por parte dos glutões das redondezas, mas sempre pontual e diligente em encher as fruteiras que vinham para a mesa da grande sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos.
Era precisamente nesta sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos que, com ou sem figos, a família se reunia diariamente no Verão. Muitas vezes, era só mesmo à hora das refeições que se podia fazer o balanço de quem estava ou quem não estava. A meio da mesa enorme que, com o desenrolar dos anos foi ficando mais pequena, o avô presidia à refeição, como outrora tinha feito o Senhor General.
No entanto, a surdez e a cegueira que, já na altura, o minavam, nunca lhe permitiram desempenhar com afinco o papel que, no passado, coubera ao sogro. Sob a vigilância (des)atenta do avô, era possível pôr os cotovelos em cima da mesa, cantar, falar com a boca cheia e mesmo brigar com os vizinhos do lado. Os filhos, pais de tantos netos tão diferentes entre si, acabavam por não intervir, comungando de uma indulgência que, não tendo sido convidada por ninguém em particular, acabava por se impor a todos em geral... O pior era quando, com os primeiros ventos de Outono, o regresso às respectivas casas da capital obrigava a retomar o fio das normas de boa educação esquecidas. Mas a culpa não era do avô.
Também não era do avô a culpa das discussões políticas que, ainda antes do 25 de Abril, começaram a dar outras cores à sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos – se bem que, às vezes, este as provocasse. Aliás, a culpa não era de ninguém... era de todos. Quem rejubilava éramos nós, os netos. Isto porque a partir de uma certa altura, começou a ser possível pôr em cima da mesa, não só os cotovelos, como também os joelhos e, muitas vezes, os pés... No calor da discussão, ninguém reparava. E nós deliciavamo-nos, alheios aos dramas que muitas vezes pairavam no ar, como por exemplo a prisão dos tios que, para a inconsciência inocente dos mais novos, se traduzia apenas por mais espaço à mesa – talvez para pôr mais qualquer coisa proibida. Para o avô, no entanto, estas discussões eram trágicas. A disciplina militar por que sempre se regera fizera dele um amante da ordem e, por conseguinte, um apoiante incondicional do Senhor Presidente do Conselho. Os filhos, não o entendiam e ele pagava-lhes da mesma moeda, temendo por eles ao mesmo tempo que se indignava com a sua rebeldia. Na sala de jantar de azulejos azuis, vermelhos e brancos, vi muitas vezes o avô mudar de cor, acometido pelos ataques de catarro e incendiado pela fúria. Infelizmente, os murros que o avô dava então na mesa não tinham o mesmo impacto que aqueles com que, uma geração antes, o Senhor General conseguia impor o silêncio: «Cambada de parvos!!! Não percebem nada de política...».
Foi talvez a seguir ao 25 de Abril que a comida da Isabel começou a azedar. A culpa também não era dela. Devia ser muito difícil cozinhar para uma montanha de gente que nem olhava para o prato, apressando-se a engolir garfada atrás de garfada por entre o turbilhão das novas palavras que, na altura, vieram engrossar os dicionários em vigor. De facto, foi na sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos que, pela primeira vez, ouvi falar em liberdade, fascismo, luta política e eleições.
Para a Isabel, no entanto, estas eram palavras como quaisquer outras. Mas, como diz o rifão, «enquanto o pau vai e vem folgam as costas». Assim, enquanto a família se digladiava à mesa pelo pão dos pobres e dos oprimidos, arriscando um ou outro «fascista!» entredentes na direcção do vizinho da frente – na altura toda a gente era fascista –, era sempre possível reduzir as rações ou comprar carne de segunda e fruta mirrada porque, a par dos novos vocábulos que enchiam as paredes da sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos, começava também a ouvir-se falar, ainda que muito baixinho, de uma tal de inflação.
E a Isabel era poupada por natureza. Resultado de uma infância de miséria nas ruelas de Santo Antão, a Isabel só tinha um lema: nesta terra, nada apodrece, nada se deita fora, tudo se aproveita...

I - A Casa Grande

Ficava no alto de um monte, a Casa Grande. Hoje em dia ninguém acredita, mas a verdade é essa. A vila marinha que outrora se lhe debruçava aos pés, cresceu, tomou freio nos dentes e acabou por engolir aquela que, um dia, a olhara de cima. Não com o olhar altivo daqueles que muito se julgam, mas de maneira terna, como uma mãe que simultaneamente protege e se revê nos filhos.
Era assim a Casa Grande. Por fora, a estrutura de pedra indicava que fora feita para durar pelos séculos dos séculos. Uma meia verdade, destinada a tropeçar no primeiro impasse burocrático surgido, a par com o inexorável crescimento daquela que fora a vila dos seus olhos.
Por dentro, a família. Lado a lado com a estrutura de pedra, uma hierarquia militarmente organizada, com bisavós, avós, filhos e netos – para aí uns vinte – e o cão, como não podia deixar de ser. Nunca o mesmo, mas sempre o cão... quer fosse a Rebolita, quer fosse o Boife.
Feita como fora, para durar, a Casa Grande contaria, se lhe fosse dado o benefício da fala, as histórias quase incríveis de todos os meninos que ali nasceram. Tios, pais, amigos da família e até a filha de uma criada – que dizia, a quem a queria ouvir, que sofria de «barriga de água», doença que teve uma inexplicável (e chorona) cura nove meses depois – viram pela primeira vez a luz do dia coada por aquelas janelas de grandes tábuas de madeira e pesados puxadores de ferro que já não se fabricam em lado nenhum.
As grandes salas do primeiro andar, dariam testemunho dos bailes de máscaras de que, hoje em dia, já pouca gente tem memória naquela vila tornada cidade, mas que, na altura, tinham o sabor dos grandes acontecimentos mundanos em que era indispensável estar presente.
Infelizmente, a minha memória não vai além do avô, a alma da Casa Grande por direito dinástico. Já então mirrado pelos anos e pelo catarro, o avô herdara o carácter de instituição que, na família, sempre se atribuiu ao patriarca, fosse ele quem fosse. Já tinha sido assim com o bisavô, se bem que naquela altura, o seu poder não fosse além das duas dimensões do retrato A1 da sala do meio, que já só servia para aterrorizar os meninos mais rebeldes.
O avô, esse, nada tinha de instituição, esmagado que fora toda a vida por um sogro de patente superior, o Senhor General, e uma mulher com uma personalidade imensa, de cuja viuvez precoce o deixou ainda mais orfão do que os próprios filhos. Apesar de tudo, o avô conseguia dividir-se entre uma paciência infinda para todos os netos e uma falta de jeito crassa para as pequenas idiossincrasias de cada um.
Assombrado pela estranha presença de uma sogra, meio louca, que por um triz não lhe sobreviveu, e da Isabel, a criada cabo-verdiana de enormes seios maternais e feitio levado dos diabos, o avô ficou na Casa Grande muito depois de todos terem partido, atraídos pelas urgências da capital, ali tão perto, e das politiquices que, na altura, assumiam todos os contornos do fruto proibido.
Institucionalizados os nascimentos nas grandes maternidades e votados ao esquecimento os bailes de máscaras do tempo da avó, a Casa Grande tornou-se então, e apenas, a sede dos Verões inesquecíveis e dos almoços de domingo. Mas mesmo assim, ninguém lhe negava o porte, a alma e a condição de quem já por muito passara, irmã espiritual que era de tantos velhinhos que ali viram chegar o fim dos seus dias – como o avô mirrado e a bisavó meio louca –, guardiã de tesouros e segredos de um passado ainda mais remoto, que ali chegaram (e ficaram) com os seus primeiros habitantes.
O facto de ter nascido num monte que virou vale ainda antes do final dos seus dias, mais não é do que a prova cabal de uma decadência cujas raízes se estendiam muito para além do desígnio dos tempos; nas mãos da insaciável vontade dos homens.