V - A sala do meio
Lembro-me dela como se fosse ontem. Dizem, todos aqueles a quem a memória permite ir mais longe, que era o diabo. O mínimo contratempo era passível de provocar a mais violenta tempestade naquela senhora de nervos de papel. Mas, para mim, a recordação devolve-ma sempre mansa como um cordeiro. Para mim, era uma espécie de boneca a quem a Silvéria, encarregada de tomar conta dela, às vezes me deixava dar de comer. E ela obedecia, tão doce e bem comportada como a boneca dos sonhos de qualquer menina. Eu, pelo meu lado, não via o brilho divertido no olhar daquela velhinha mirrada, deliciada com a novidade de ter uma criança tão pequena a dar-lhe de comer e, ainda para mais, com um ar tão compenetrado.
Hoje pesa-me a curta memória, porque esse brilho no olhar era mesmo a última coisa que lhe restava dos tempos de antigamente: quando os seus nervos de papel a faziam virar o diabo; quando o seu insólito sentido de humor, que a todos surpreendia, a levava a pintar a manta. Destravada, como poucos, pouco sensata, talvez, mas com certeza divertida... hilariante, mesmo.
Tempos houve em que, conta quem se lembra, não havia quem nela tivesse mão. Depois de a morte lhe ter levado o marido e a filha, quase no mesmo sopro, nem mesmo ela tinha mão sobre si. A única bisavó que conheci viva transformou-se num fantasma do que era. Uma alma penada que percorria a casa, a altas horas, em camisa de noite de folhos, como as que já só se vêem em filmes de época e touca de dormir a segurar o cabelo desgrenhado. Na mão, uma vela acesa abria-lhe caminho pelos corredores da casa enquanto projectava sombras aterradoras ao longo das paredes. Um verdadeiro susto para as criadas da casa, o pânico total para os bisnetos que a encaravam como uma verdadeira assombração. Por vezes, uma consciência irónica permitia-lhe ter algum vislumbre do pavor que causava aos habitantes mais sensíveis daquela casa. Nessas alturas, voltava-lhe intacto o sentido de humor do passado e a Bisa divertia-se como uma menina pequena a tirar partido das fraquezas alheias. Então, soltava ladainhas, fazia caretas medonhas e momices assustadoras que só não enganavam aqueles que já conheciam de sobra o brilho risonho que, nessas ocasiões, lhe acendia o olhar. Entre os bisnetos, só mesmo o Gito resistia a estas investidas assustadoras. Uma coragem que, segundo conta o próprio, lhe valeu, vezes sem conta, um quadrado de açúcar, a única guloseima a que a Bisa tinha acesso na altura.
Eu devia ter para aí uns cinco anos quando a Bisa morreu. Quando a conheci, já não pregava partidas, já não tinha ataques de nervos e já não assustava os meninos da casa com os seus olhares de louca, os seus cabelos desgrenhados e os seus hábitos pouco ortodoxos. A já longa velhice tinha-a confinado à sala do meio, de onde nunca saía sob pretexto algum, resignada à única janela que, rasgada para o jardim, lhe trazia alguma luz, por entre os gritos e as gargalhadas de uma mão cheia de bisnetos indiferentes que aí brincavam.
Quando descobriram que a Bisa já não estava capaz de tomar conta de si mesma a família viu-se forçada a fazer uma reunião de emergência. Como convencer aquela senhora, de teimosia inabalável e feitio levado da breca a deixar que tratassem dela? Foi difícil, contou-me a minha mãe. Quando finalmente conseguiram convencê-la a descer um lanço de escadas e trocar o quarto que partilhara durante tantos anos com o Senhor General pela sala do meio, o cabelo platinado, que outrora fora o seu orgulho, já não sabia o que era pente há um bom par de meses. Foi necessário levá-la ao cabeleireiro e distrair a sua atenção enquanto lhe davam umas discretas tesouradas aqui, ali e onde já não havia outro remédio. Depois, a Silvéria entrou em campo e a Bisa abandonou definitivamente os comportamentos sui generis que, noutros tempos, a tinham caracterizado.
A passagem para a sala do meio veio pôr fim a uma era. Com ela, acabaram-se os ataques de nervos intempestivos, as deambulações nocturnas que tanto aterrorizavam os meninos e as criadas da casa, mas também os provérbios oportunos, as piadas imprevistas e imprevisíveis, as lenga-lengas que eram o seu ex-libris: «Arre burrinho para Azeitão carregadinho de feijão para mim e para o meu cão. O meu cão não mora aqui, mora às portas do Rossio. Venha chuva, venha vento, corre que nem um corrupio!».
Com a passagem para a sala do meio, a Bisa começou a morrer lentamente, primeiro para si mesma, depois para o mundo e finalmente para a vida. Nos últimos tempos, eram poucos aqueles que a visitavam. O genro, que com ela partilhava memórias dolorosas, os netos, que dela muito recordavam e aquela bisneta minúscula, que insistia em confundi-la com as suas bonecas e desafiava a Silvéria para que a deixasse dar-lhe de comer.
Quando a Bisa morreu, não me quiseram contar. Soube passada uma semana, de chofre, quando ao anunciar a minha intenção de interromper uma brincadeira qualquer para lhe fazer uma visita, o Manel Grande me comunicou que ela morrera. Na altura, não me lembro de ter sentido uma grande dor. A morte é uma coisa estranha para as crianças pequenas. A consciência da perda é algo que vem mais tarde.
Depois da morte da Bisa, a sala do meio foi transformada em escritório-biblioteca. Qualquer coisa que servia os interesses de quem ali quisesse encontrar algum sossego, quer gostasse de ler muito, pouco ou nada. Aliás, a forma como aquela biblioteca estava organizada era por si só curiosa, já que permitia às “Memórias de um Burro”, da Condessa de Ségur, partilhar o escaparate de “Os Possessos” de Dostoievski, um livro que, na opinião do meu pai, era um retrato fidedigno da génese da Casa Grande. Ainda assim, não foram poucos aqueles que ali descobriram boa companhia para as tardes eternas das férias grandes. Quanto a mim, uma das grandes vantagens daquela mini-biblioteca era precisamente o facto de lhe faltar um censor. Se não fosse assim, nunca me teriam deixado ler, aos 14 anos, “O Pássaro Pintado” de Jerzy Kosinski, um dos livros que mais me marcou até hoje não tanto pela qualidade da escrita, algo que me era perfeitamente indiferente na época, mas sobretudo pela crueza de uma narrativa desaforadamente realista que ficou, para sempre, única na minha memória. Lado a lado com a Bisa, Kosinski é uma das boas recordações que me ficaram da sala do meio.
Hoje pesa-me a curta memória, porque esse brilho no olhar era mesmo a última coisa que lhe restava dos tempos de antigamente: quando os seus nervos de papel a faziam virar o diabo; quando o seu insólito sentido de humor, que a todos surpreendia, a levava a pintar a manta. Destravada, como poucos, pouco sensata, talvez, mas com certeza divertida... hilariante, mesmo.
Tempos houve em que, conta quem se lembra, não havia quem nela tivesse mão. Depois de a morte lhe ter levado o marido e a filha, quase no mesmo sopro, nem mesmo ela tinha mão sobre si. A única bisavó que conheci viva transformou-se num fantasma do que era. Uma alma penada que percorria a casa, a altas horas, em camisa de noite de folhos, como as que já só se vêem em filmes de época e touca de dormir a segurar o cabelo desgrenhado. Na mão, uma vela acesa abria-lhe caminho pelos corredores da casa enquanto projectava sombras aterradoras ao longo das paredes. Um verdadeiro susto para as criadas da casa, o pânico total para os bisnetos que a encaravam como uma verdadeira assombração. Por vezes, uma consciência irónica permitia-lhe ter algum vislumbre do pavor que causava aos habitantes mais sensíveis daquela casa. Nessas alturas, voltava-lhe intacto o sentido de humor do passado e a Bisa divertia-se como uma menina pequena a tirar partido das fraquezas alheias. Então, soltava ladainhas, fazia caretas medonhas e momices assustadoras que só não enganavam aqueles que já conheciam de sobra o brilho risonho que, nessas ocasiões, lhe acendia o olhar. Entre os bisnetos, só mesmo o Gito resistia a estas investidas assustadoras. Uma coragem que, segundo conta o próprio, lhe valeu, vezes sem conta, um quadrado de açúcar, a única guloseima a que a Bisa tinha acesso na altura.
Eu devia ter para aí uns cinco anos quando a Bisa morreu. Quando a conheci, já não pregava partidas, já não tinha ataques de nervos e já não assustava os meninos da casa com os seus olhares de louca, os seus cabelos desgrenhados e os seus hábitos pouco ortodoxos. A já longa velhice tinha-a confinado à sala do meio, de onde nunca saía sob pretexto algum, resignada à única janela que, rasgada para o jardim, lhe trazia alguma luz, por entre os gritos e as gargalhadas de uma mão cheia de bisnetos indiferentes que aí brincavam.
Quando descobriram que a Bisa já não estava capaz de tomar conta de si mesma a família viu-se forçada a fazer uma reunião de emergência. Como convencer aquela senhora, de teimosia inabalável e feitio levado da breca a deixar que tratassem dela? Foi difícil, contou-me a minha mãe. Quando finalmente conseguiram convencê-la a descer um lanço de escadas e trocar o quarto que partilhara durante tantos anos com o Senhor General pela sala do meio, o cabelo platinado, que outrora fora o seu orgulho, já não sabia o que era pente há um bom par de meses. Foi necessário levá-la ao cabeleireiro e distrair a sua atenção enquanto lhe davam umas discretas tesouradas aqui, ali e onde já não havia outro remédio. Depois, a Silvéria entrou em campo e a Bisa abandonou definitivamente os comportamentos sui generis que, noutros tempos, a tinham caracterizado.
A passagem para a sala do meio veio pôr fim a uma era. Com ela, acabaram-se os ataques de nervos intempestivos, as deambulações nocturnas que tanto aterrorizavam os meninos e as criadas da casa, mas também os provérbios oportunos, as piadas imprevistas e imprevisíveis, as lenga-lengas que eram o seu ex-libris: «Arre burrinho para Azeitão carregadinho de feijão para mim e para o meu cão. O meu cão não mora aqui, mora às portas do Rossio. Venha chuva, venha vento, corre que nem um corrupio!».
Com a passagem para a sala do meio, a Bisa começou a morrer lentamente, primeiro para si mesma, depois para o mundo e finalmente para a vida. Nos últimos tempos, eram poucos aqueles que a visitavam. O genro, que com ela partilhava memórias dolorosas, os netos, que dela muito recordavam e aquela bisneta minúscula, que insistia em confundi-la com as suas bonecas e desafiava a Silvéria para que a deixasse dar-lhe de comer.
Quando a Bisa morreu, não me quiseram contar. Soube passada uma semana, de chofre, quando ao anunciar a minha intenção de interromper uma brincadeira qualquer para lhe fazer uma visita, o Manel Grande me comunicou que ela morrera. Na altura, não me lembro de ter sentido uma grande dor. A morte é uma coisa estranha para as crianças pequenas. A consciência da perda é algo que vem mais tarde.
Depois da morte da Bisa, a sala do meio foi transformada em escritório-biblioteca. Qualquer coisa que servia os interesses de quem ali quisesse encontrar algum sossego, quer gostasse de ler muito, pouco ou nada. Aliás, a forma como aquela biblioteca estava organizada era por si só curiosa, já que permitia às “Memórias de um Burro”, da Condessa de Ségur, partilhar o escaparate de “Os Possessos” de Dostoievski, um livro que, na opinião do meu pai, era um retrato fidedigno da génese da Casa Grande. Ainda assim, não foram poucos aqueles que ali descobriram boa companhia para as tardes eternas das férias grandes. Quanto a mim, uma das grandes vantagens daquela mini-biblioteca era precisamente o facto de lhe faltar um censor. Se não fosse assim, nunca me teriam deixado ler, aos 14 anos, “O Pássaro Pintado” de Jerzy Kosinski, um dos livros que mais me marcou até hoje não tanto pela qualidade da escrita, algo que me era perfeitamente indiferente na época, mas sobretudo pela crueza de uma narrativa desaforadamente realista que ficou, para sempre, única na minha memória. Lado a lado com a Bisa, Kosinski é uma das boas recordações que me ficaram da sala do meio.
