IV - A sala do homem da Lua
Apesar do mau feitio, que a todos exasperava, a Isabel podia ser absolutamente divertida, quando estava bem disposta. Profundamente maliciosa, conseguia, em três tempos, transformar a conversa mais inocente no diálogo mais picante sem que o seu interlocutor se apercebesse do caminho por que estava a ser conduzido.
As poucas palavras em crioulo que com ela aprendemos eram invariavelmente os mais cabeludos palavrões, que os mais pequenos repetiam à mesa para pasmo dos «grandes» e gáudio da autora da proeza.
Guardo na memória um episódio que, apesar de longínquo, continua a ser mencionado aqui e ali, nas vagas reuniões familiares que pontuam o pós-queda da Casa Velha e que me parece ser bem revelador do feitio da rainha do paraíso de todos os esconderijos.
Passou-se na sala do homem da lua onde, todas as noites depois do jantar, a família se reunia em frente da televisão. A Isabel nem sempre aparecia. Não propriamente por falta de convite mas por motivos fisico-sociais. É que aquela mulher, que conseguia mandar em todos lá em casa, tinha uma noção muito sui-generis daquilo a que chamava “o seu lugar”. Da cozinha, podia bem reinar sobre toda a casa, mas isso não implicava forçosamente a sua presença física nos restantes compartimentos da mesma e muito menos na sala de estar onde a família se reunia. Fosse como fosse, parecia saber sempre, sem que lhe dissessem, aquilo que se passava em cada metro quadrado da Casa Grande, desde os cobertores que, por obra e graça do Espírito Santo, mudavam de cama, aos pratos partidos que subrepticiamente iam parar ao caixote do lixo dos vizinhos do lado.
Naquele dia, no entanto, as coisas eram diferentes. Naquele dia, o Homem (ou um homem, pelo menos) iria pôr os pés na Lua pela primeira vez, uma proeza sobre a qual a Isabel fazia questão de manifestar a sua incredulidade.
O senhor que, reza a História, se chamava Neil Armstrong – ainda que o nome da criatura nunca tivesse interessado à Isabel – ia, à semelhança dos marujos de outrora que ainda hoje nos enchem de orgulho, trilhar rumos nunca antes trilhados e pisar chãos nunca antes pisados. E, pasme-se, a grande caixa rectangular de fundo preto e branco da sala prometia transmitir a proeza e em tempo real.
«Isabel! Oh Isabel venha ver!». Foram várias as vozes que, àquela hora se ergueram para chamar a única que não respondera à chamada. O Bugas, que na condição de primogénito se arrogava a missão de educador das hostes, andava há já uns dias a preparar aquela mulher de indomáveis convicções para a realidade inevitável de que o homem (o tal) iria pisar a Lua pela primeira vez. Tudo em vão. Acreditasse quem quisesse, porque ela tinha mais que fazer.
Finalmente, ao fim de várias instâncias, a dona do nome, já gasto por tanto grito e apelo, lá acedeu em responder ao chamado. A porta abriu-se silenciosamente, como sempre sob a sua mão vigilante e a enorme mulher de seios generosos e traseiro polpudo entrou na sala. «Oh Isabel, finalmente! Sente-se aqui». Mais ao fundo, outra voz se elevava, «não, não... aqui, aqui!» Ela, qual rainha da noite, deu-se ao luxo de escolher poiso. «Não. Sento-me antes aqui», disse optando por uma velha cadeira torta, de costas partidas que, na sua opinião, melhor assentava à sua condição de serviçal. Nos olhos azuis mar de crioula genuína, um brilho malicioso denunciava a intenção que a trouxera da cozinha. A nós, ninguém nos engana, pareciam querer dizer.
Na caixa rectangular de fundo preto e branco, as imagens falavam por si. À volta, o silêncio impunha-se, temeroso, respeitoso. Ninguém se atrevia a respirar. Nem a Isabel, atrevo-me a dizer. Sobre estas imagens guardo poucas recordações. Teria para aí uns quatro anos, na altura. Mas lembro-me bem que, durante semanas, não se falava noutra coisa lá em casa. Todos tinham uma opinião ou um comentário a fazer. Todos, menos a Isabel. Depois da sessão, saiu da sala muda e calada e foi necessária uma semana inteirinha de apelos e súplicas para que ela lá dissesse o que achara da proeza dos americanos. “Mas vocês acham que eu acredito que a lua, que é pouco maior que um copo de grogue, tem aquele chão todo para um homem pisar!”, exclamou a mulher, em tom que não admitia réplicas. O ar divertido com que o disse era passível de suscitar dúvidas, mas o assunto estava definitivamente encerrado. A Isabel não era daquelas que dá o braço a torcer facilmente. E contra factos não há argumentos.
As poucas palavras em crioulo que com ela aprendemos eram invariavelmente os mais cabeludos palavrões, que os mais pequenos repetiam à mesa para pasmo dos «grandes» e gáudio da autora da proeza.
Guardo na memória um episódio que, apesar de longínquo, continua a ser mencionado aqui e ali, nas vagas reuniões familiares que pontuam o pós-queda da Casa Velha e que me parece ser bem revelador do feitio da rainha do paraíso de todos os esconderijos.
Passou-se na sala do homem da lua onde, todas as noites depois do jantar, a família se reunia em frente da televisão. A Isabel nem sempre aparecia. Não propriamente por falta de convite mas por motivos fisico-sociais. É que aquela mulher, que conseguia mandar em todos lá em casa, tinha uma noção muito sui-generis daquilo a que chamava “o seu lugar”. Da cozinha, podia bem reinar sobre toda a casa, mas isso não implicava forçosamente a sua presença física nos restantes compartimentos da mesma e muito menos na sala de estar onde a família se reunia. Fosse como fosse, parecia saber sempre, sem que lhe dissessem, aquilo que se passava em cada metro quadrado da Casa Grande, desde os cobertores que, por obra e graça do Espírito Santo, mudavam de cama, aos pratos partidos que subrepticiamente iam parar ao caixote do lixo dos vizinhos do lado.
Naquele dia, no entanto, as coisas eram diferentes. Naquele dia, o Homem (ou um homem, pelo menos) iria pôr os pés na Lua pela primeira vez, uma proeza sobre a qual a Isabel fazia questão de manifestar a sua incredulidade.
O senhor que, reza a História, se chamava Neil Armstrong – ainda que o nome da criatura nunca tivesse interessado à Isabel – ia, à semelhança dos marujos de outrora que ainda hoje nos enchem de orgulho, trilhar rumos nunca antes trilhados e pisar chãos nunca antes pisados. E, pasme-se, a grande caixa rectangular de fundo preto e branco da sala prometia transmitir a proeza e em tempo real.
«Isabel! Oh Isabel venha ver!». Foram várias as vozes que, àquela hora se ergueram para chamar a única que não respondera à chamada. O Bugas, que na condição de primogénito se arrogava a missão de educador das hostes, andava há já uns dias a preparar aquela mulher de indomáveis convicções para a realidade inevitável de que o homem (o tal) iria pisar a Lua pela primeira vez. Tudo em vão. Acreditasse quem quisesse, porque ela tinha mais que fazer.
Finalmente, ao fim de várias instâncias, a dona do nome, já gasto por tanto grito e apelo, lá acedeu em responder ao chamado. A porta abriu-se silenciosamente, como sempre sob a sua mão vigilante e a enorme mulher de seios generosos e traseiro polpudo entrou na sala. «Oh Isabel, finalmente! Sente-se aqui». Mais ao fundo, outra voz se elevava, «não, não... aqui, aqui!» Ela, qual rainha da noite, deu-se ao luxo de escolher poiso. «Não. Sento-me antes aqui», disse optando por uma velha cadeira torta, de costas partidas que, na sua opinião, melhor assentava à sua condição de serviçal. Nos olhos azuis mar de crioula genuína, um brilho malicioso denunciava a intenção que a trouxera da cozinha. A nós, ninguém nos engana, pareciam querer dizer.
Na caixa rectangular de fundo preto e branco, as imagens falavam por si. À volta, o silêncio impunha-se, temeroso, respeitoso. Ninguém se atrevia a respirar. Nem a Isabel, atrevo-me a dizer. Sobre estas imagens guardo poucas recordações. Teria para aí uns quatro anos, na altura. Mas lembro-me bem que, durante semanas, não se falava noutra coisa lá em casa. Todos tinham uma opinião ou um comentário a fazer. Todos, menos a Isabel. Depois da sessão, saiu da sala muda e calada e foi necessária uma semana inteirinha de apelos e súplicas para que ela lá dissesse o que achara da proeza dos americanos. “Mas vocês acham que eu acredito que a lua, que é pouco maior que um copo de grogue, tem aquele chão todo para um homem pisar!”, exclamou a mulher, em tom que não admitia réplicas. O ar divertido com que o disse era passível de suscitar dúvidas, mas o assunto estava definitivamente encerrado. A Isabel não era daquelas que dá o braço a torcer facilmente. E contra factos não há argumentos.

1 Comments:
Perdão
Por erro meu, era impossível fazer comentários até hoje. Já resolvi o problema. Go ahead.
Beijos
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