III - O paraíso de todos os esconderijos
Bastava entrar na cozinha para ter a certeza desta máxima. Aliás, os próprios ratos tinham medo de se aventurar naquele paraíso de todos os esconderijos, onde era possível encontrar de tudo, desde bolas de cera para fazer velas a sapatos velhos, sem par, que, quem sabe, talvez pudessem um dia voltar a servir a alguém.
A podridão de muitos dos alimentos que connosco passaram intermináveis férias atestava uma verdade única: a Isabel confiava plena e cegamente no instinto de conservação das vitualhas. Mesmo quando o aspecto – e muitas vezes o cheiro – nos dava a prova cabal de que essa confiança era imerecida. Recordo ainda uma cenoura, vagamente aparentada com os vegetais típicos do Entroncamento, que passou um Verão inteiro em exposição em cima do frigorífico... E ai de quem lhe tocasse.
Às vezes, até mesmo nós tínhamos medo de ir à cozinha, não tanto pela incrível panóplia de objectos e potenciais alimentos – alguns deles inidentificáveis – que aí moravam mas, mais ainda talvez, pelo terrível feitio da soberana que sobre estes reinava.
A Isabel era assim mesmo. Ninguém passava impunemente pelo paraíso de todos os esconderijos. Mais. Estávamos todos dependentes das suas imprevisíveis mudanças de humor. Quando descíamos, de manhã, para tomar o pequeno-almoço, nunca sabíamos se esse dia ia ser «da caça ou do caçador» ou, caso pertencesse a qualquer um dos dois, se as coisas permaneceriam assim até ao cair da noite.
Nos dias em que eramos o caçador – nunca todos ao mesmo tempo, evidentemente – podíamos fazer dela o que quiséssemos. Uma vantagem que usávamos com alguma parcimónia, salvaguardando sempre a hipótese de, no dia seguinte, virmos a ser a caça.
Nem mesmo nos dias de folga da Isabel nos aventurávamos muito por aquelas bandas. Qualquer molécula, fosse do que fosse, que ficasse fora do lugar era passível de acarretar todo o género de retaliações no dia seguinte... E a Isabel nunca vinha de bom humor das suas folgas.
Aparte esses pequenos detalhes, era um verdadeiro anjo. Cúmplice dos muitos amores e desamores que pela Casa Grande passaram; fiel depositária dos pequenos segredos de cada um – que nem às paredes confessava – a Isabel foi uma segunda mãe para todos nós. Uma mãe muito sui-generis, diga-se em abono da verdade, mas uma mãe sem sombra de dúvidas.
Com ela bebemos todos a «água do madeiral», o que equivale a dizer que herdámos o fascínio por Cabo Verde, uma terra que, apesar de tudo, muitos de nós nunca chegaram a visitar. Se foi a insubstituível cachupa dos almoços de domingo, ou o raríssimo caldo de peixe que pontuava os «dias do caçador» e nos deliciava até às lágrimas... Ou, melhor ainda, se foi o saboroso ponche acompanhado por fatias de cuscus ou pelas incríveis bolachas de araruta dos marinheiros que, feitas para muito durar, chegavam a partir dentes – mas que todos aprendemos a apreciar, apesar de muitas vezes saberem a mofo –, não tenho bem a certeza... Cada um de nós terá certamente a sua resposta. Para mim, talvez tenham sido as infindáveis mornas que, de encontro aos seus seios de mãe eterna, nos acalentaram as noites de pesadelo e as tardes de pequenas tristezas.
A podridão de muitos dos alimentos que connosco passaram intermináveis férias atestava uma verdade única: a Isabel confiava plena e cegamente no instinto de conservação das vitualhas. Mesmo quando o aspecto – e muitas vezes o cheiro – nos dava a prova cabal de que essa confiança era imerecida. Recordo ainda uma cenoura, vagamente aparentada com os vegetais típicos do Entroncamento, que passou um Verão inteiro em exposição em cima do frigorífico... E ai de quem lhe tocasse.
Às vezes, até mesmo nós tínhamos medo de ir à cozinha, não tanto pela incrível panóplia de objectos e potenciais alimentos – alguns deles inidentificáveis – que aí moravam mas, mais ainda talvez, pelo terrível feitio da soberana que sobre estes reinava.
A Isabel era assim mesmo. Ninguém passava impunemente pelo paraíso de todos os esconderijos. Mais. Estávamos todos dependentes das suas imprevisíveis mudanças de humor. Quando descíamos, de manhã, para tomar o pequeno-almoço, nunca sabíamos se esse dia ia ser «da caça ou do caçador» ou, caso pertencesse a qualquer um dos dois, se as coisas permaneceriam assim até ao cair da noite.
Nos dias em que eramos o caçador – nunca todos ao mesmo tempo, evidentemente – podíamos fazer dela o que quiséssemos. Uma vantagem que usávamos com alguma parcimónia, salvaguardando sempre a hipótese de, no dia seguinte, virmos a ser a caça.
Nem mesmo nos dias de folga da Isabel nos aventurávamos muito por aquelas bandas. Qualquer molécula, fosse do que fosse, que ficasse fora do lugar era passível de acarretar todo o género de retaliações no dia seguinte... E a Isabel nunca vinha de bom humor das suas folgas.
Aparte esses pequenos detalhes, era um verdadeiro anjo. Cúmplice dos muitos amores e desamores que pela Casa Grande passaram; fiel depositária dos pequenos segredos de cada um – que nem às paredes confessava – a Isabel foi uma segunda mãe para todos nós. Uma mãe muito sui-generis, diga-se em abono da verdade, mas uma mãe sem sombra de dúvidas.
Com ela bebemos todos a «água do madeiral», o que equivale a dizer que herdámos o fascínio por Cabo Verde, uma terra que, apesar de tudo, muitos de nós nunca chegaram a visitar. Se foi a insubstituível cachupa dos almoços de domingo, ou o raríssimo caldo de peixe que pontuava os «dias do caçador» e nos deliciava até às lágrimas... Ou, melhor ainda, se foi o saboroso ponche acompanhado por fatias de cuscus ou pelas incríveis bolachas de araruta dos marinheiros que, feitas para muito durar, chegavam a partir dentes – mas que todos aprendemos a apreciar, apesar de muitas vezes saberem a mofo –, não tenho bem a certeza... Cada um de nós terá certamente a sua resposta. Para mim, talvez tenham sido as infindáveis mornas que, de encontro aos seus seios de mãe eterna, nos acalentaram as noites de pesadelo e as tardes de pequenas tristezas.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home