terça-feira, março 07, 2006

II - Mosaicos azuis, vermelhos e brancos

Nos tempos do avô, no entanto, o vale ainda era pouco profundo; ainda não adquirira aquele aspecto de vala comum onde, juntamente com os sonhos, ficaram enterradas as memórias da família... e o Boife.
Nos tempos do avô ainda se podiam apanhar ginjas no jardim e as ameixas ainda não sabiam a fénico. Depois, ficou apenas a figueira, testemunho de muitos assaltos por parte dos glutões das redondezas, mas sempre pontual e diligente em encher as fruteiras que vinham para a mesa da grande sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos.
Era precisamente nesta sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos que, com ou sem figos, a família se reunia diariamente no Verão. Muitas vezes, era só mesmo à hora das refeições que se podia fazer o balanço de quem estava ou quem não estava. A meio da mesa enorme que, com o desenrolar dos anos foi ficando mais pequena, o avô presidia à refeição, como outrora tinha feito o Senhor General.
No entanto, a surdez e a cegueira que, já na altura, o minavam, nunca lhe permitiram desempenhar com afinco o papel que, no passado, coubera ao sogro. Sob a vigilância (des)atenta do avô, era possível pôr os cotovelos em cima da mesa, cantar, falar com a boca cheia e mesmo brigar com os vizinhos do lado. Os filhos, pais de tantos netos tão diferentes entre si, acabavam por não intervir, comungando de uma indulgência que, não tendo sido convidada por ninguém em particular, acabava por se impor a todos em geral... O pior era quando, com os primeiros ventos de Outono, o regresso às respectivas casas da capital obrigava a retomar o fio das normas de boa educação esquecidas. Mas a culpa não era do avô.
Também não era do avô a culpa das discussões políticas que, ainda antes do 25 de Abril, começaram a dar outras cores à sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos – se bem que, às vezes, este as provocasse. Aliás, a culpa não era de ninguém... era de todos. Quem rejubilava éramos nós, os netos. Isto porque a partir de uma certa altura, começou a ser possível pôr em cima da mesa, não só os cotovelos, como também os joelhos e, muitas vezes, os pés... No calor da discussão, ninguém reparava. E nós deliciavamo-nos, alheios aos dramas que muitas vezes pairavam no ar, como por exemplo a prisão dos tios que, para a inconsciência inocente dos mais novos, se traduzia apenas por mais espaço à mesa – talvez para pôr mais qualquer coisa proibida. Para o avô, no entanto, estas discussões eram trágicas. A disciplina militar por que sempre se regera fizera dele um amante da ordem e, por conseguinte, um apoiante incondicional do Senhor Presidente do Conselho. Os filhos, não o entendiam e ele pagava-lhes da mesma moeda, temendo por eles ao mesmo tempo que se indignava com a sua rebeldia. Na sala de jantar de azulejos azuis, vermelhos e brancos, vi muitas vezes o avô mudar de cor, acometido pelos ataques de catarro e incendiado pela fúria. Infelizmente, os murros que o avô dava então na mesa não tinham o mesmo impacto que aqueles com que, uma geração antes, o Senhor General conseguia impor o silêncio: «Cambada de parvos!!! Não percebem nada de política...».
Foi talvez a seguir ao 25 de Abril que a comida da Isabel começou a azedar. A culpa também não era dela. Devia ser muito difícil cozinhar para uma montanha de gente que nem olhava para o prato, apressando-se a engolir garfada atrás de garfada por entre o turbilhão das novas palavras que, na altura, vieram engrossar os dicionários em vigor. De facto, foi na sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos que, pela primeira vez, ouvi falar em liberdade, fascismo, luta política e eleições.
Para a Isabel, no entanto, estas eram palavras como quaisquer outras. Mas, como diz o rifão, «enquanto o pau vai e vem folgam as costas». Assim, enquanto a família se digladiava à mesa pelo pão dos pobres e dos oprimidos, arriscando um ou outro «fascista!» entredentes na direcção do vizinho da frente – na altura toda a gente era fascista –, era sempre possível reduzir as rações ou comprar carne de segunda e fruta mirrada porque, a par dos novos vocábulos que enchiam as paredes da sala de jantar de mosaicos azuis, vermelhos e brancos, começava também a ouvir-se falar, ainda que muito baixinho, de uma tal de inflação.
E a Isabel era poupada por natureza. Resultado de uma infância de miséria nas ruelas de Santo Antão, a Isabel só tinha um lema: nesta terra, nada apodrece, nada se deita fora, tudo se aproveita...